quarta-feira, 6 de outubro de 2021

CAUSOS DE NOSSA GENTE MINEIRA - 12 (Pe. Higino e os caronistas)

 


Justino e a Estranha Procissão que Aumentava de Tamanho.

 





Justino era um rapaz boa pinta e ia à igreja, só pra paquerar as filhas bonitas dos fazendeiros, até porque ele não acreditava em nada.
Certa feita, numa noite bem escura, Justino entrou atrás de uma procissão, que tinha saído da capelinha de Sto. Antônio com o destino na matriz N. S. da Conceição, que ficava no alto do morro.
Justino observou que as pessoas estavam todas embevecidas pelo forte clima religioso, de modo que, nem pros lados elas olhavam.
Pois é, o trajeto era longo.
Justino, que estava com a sã consciência, observou que vultos encapuzados, cujos rostos não davam pra ver, iam engordando o cortejo que levava o Senhor Morto, num esquife.
Quando a procissão chegou na Casa de Deus, os fiéis entraram pelas portas da matriz, e aí, Justino, já meio assustado, viu que estes vultos não fizeram o mesmo, melhor dizendo, se dirigiram pelas laterais do lado de fora do templo católico.
Justino estranhou muito o que via e, como era corajoso, resolveu averiguar o que estava realmente sucedendo.
Acontece que nos fundos da igreja tinha um cemitério, coisa muito comum naquela época, e, quando o Justino viu aqueles seres de roupa preta entrando no Campo Santo e sumindo em meio aos túmulos, não aguentou a barra e caiu desfalecido.
No dia seguinte, foi encontrado na porta do cemitério. Voltou a si, contando toda esta história macabra, todavia, ninguém acreditou nele.
E você, acreditaria?

Nota, É bom lembrar que estes contos misteriosos estão espalhados por toda a nossa Minas Gerais.

anibal werneckfreitas, em 06/09/2019.

quarta-feira, 29 de setembro de 2021

DE COMO UMA ÁRVORE DITA SAGRADA ASSUSTOU O LUGAREJO DE BREJO DA LUZ NO INTERIOR DAS MINAS GERAIS.

 

A subida íngreme ia até o topo do morro, numa trilha forjada pela gente do lugar, com o mato espesso, que retardava a caminhada até uma única árvore, bem no alto da colina. Era uma árvore pequena e solitária, que quando contrastava com o por do sol, liberava um cenário bíblico, porque os raios da estrela-mor atingiam-na por detrás e se abriam como um leque em volta da sua copa, era, na verdade, um capricho inexplicável da mãe natureza.
Então, o caso aqui envolve essa árvore, que era considerada sagrada. Quando as pessoas se miravam nela, paravam seus afazeres, se ajoelhavam, e rezavam entoando cânticos de louvor. Os mais velhos diziam ser essa árvore uma réplica da do Paraíso, a proibida por Deus, e causadora da expulsão de Adão e Eva do Éden.
"Ontem eu saboreei o fruto dessa árvore sagrada, e constatei um sabor amargo insuportável, todavia, mesmo assim, consegui comer um pouco", confessou Expedito para o Seu Antônio da venda, que lhe servia uma branquinha. "Você tá doido, não faça mais isso não, poderá ser castigado!", censurou-lhe. O Expedito virou a bendita goela abaixo e, "Eu não acredito nessas coisas não, é tudo da cabeça do povo, qualquer dia desses vou acabar com essa palhaçada!". "Deixa disso homem, não brinque com coisa séria, lá de cima Ele vê tudo cá embaixo". "Que nada, até porque Ele não existe...". "Agora você pegou pesado, ainda bem que sou seu amigo, e somos os únicos aqui na venda, mas, por favor, tome cuidado com o que diz, este lugar é por demais carola, se as beatas ouvirem isso, vão bater no ouvido do padre e aí...". "Aí o quê?, eu sou livre, e tenho o direito de pensar o que eu quero, assim como elas pensam que essa árvore é sagrada, eu penso o contrário". Já bastante nervoso, Expedito foi até o passeio da rua, deu uma cuspida, e voltou, "E tem mais, companheiro, vou lá fora de novo, e gritar tudo isso que lhe falei, bem alto, e em bom tom, aproveite e põe mais uma!". Com as mãos trêmulas, seu Antônio pôs outra dose da mardita e, "Não!, amigo, isso eu não vou permitir na frente do meu estabelecimento, assim você vai acabar com o meu negócio, pense direitinho, não faça isso não!, olha, você nem precisa pagar o que já bebeu, mas pelo amor de Deus, não faça isso não!". Expedito olhou nos olhos do suplicante homem e viu que ele estava muito assustado, "Se aquiete, não vou mais fazer isso não, tive uma ideia melhor, amanhã você verá e, por favor, coloque a saideira, já está ficando tarde". Enquanto Expedito virava o copo derradeiro, Seu Antônio o alertou, como se adivinhasse o que estava para acontecer, "Vê se cure dessa bebedeira, pra não fazer nenhuma besteira, o desrespeito para com esta árvore, certamente se transformará numa maldição muito grande pra você, sem falar no nosso lugarejo, que poderá ser varrido do mapa pelas mãos do Senhor". "E você acredita nessas coisas?, este é o grande problema da humanidade, a facilidade de acreditar em coisas absurdas, a crença nessas coisas é simplesmente assustadora, até quando?, é gente que fala em Deus, e não pratica o perdão, faça-me o favor, não quero mais ouvir nada, pra mim chega!". Assim, cambaleando, Expedito pegou um litro da distinta, pagou a conta, e vazou direto pela porta da frente, sumindo na rua deserta, já escura pela noite chegando, ainda dando pra ver a Árvore Sagrada se delineando sob os últimos raios do sol. Por sua vez, Seu Antônio fechou o bar, tomou um banho, jantou, e foi dormir.
Tudo corria nos conformes, todavia, durante a madrugada, o som de um machado perturbou o povoado, pela primeira vez, e, no entanto, ninguém se levantou pra ver o que estava acontecendo.
Enfim, no dia seguinte, Brejo da Luz acordou em polvorosa. A balbúrdia era geral, todo mundo olhava pro morro, e não via mais a Árvore Sagrada. Como loucos, todos correram morro acima pra ver o que tinha acontecido, inclusive o seu Antônio da venda, e, assim, viram o Expedito morto, abraçado no machado junto ao peito, com um sorriso nos lábios, encima do tronco da árvore tombada por ele, certamente, envenenado pela mistura do fruto proibido com a cachaça.
Ao vê-lo deste modo, o silêncio na turba foi sepulcral. "Estão vendo o que acontece com quem desafia Deus?". Gritou um, no meio da multidão, que se aglomerava em volta do cadáver. "Vamos rezar e pedir perdão a Deus pelo que este infeliz fez, e pela gente, também, que não fez nada pra impedi-lo!" Retrucou outro. Segunda a lenda, se isso acontecesse, Brejo da Luz seria varrida do mapa, por isso, todos se ajoelharam, e, temerosos, esperaram pelo pior, ou seja, o aniquilamento total do arraial. Nesse mesmo dia fatídico, uma missa foi rezada em louvor ao Senhor na Capelinha de São Judas Tadeu, e o corpo do Expedito foi velado na igreja, e enterrado logo em seguida. Desta maneira, o pessoal, temeroso, ficou esperando pelo dia seguinte. E pra por mais lenha na fogueira, o padre Orlando no homilia, tinha sentenciado, "Deus não vai perdoar tal afronta, pelo visto, o nosso povoado, Brejo da Luz, não passará de amanhã!".
Com estas palavras apocalípticas, ninguém conseguiu dormir naquela noite. Uma vigília varou madrugada adentro, muitas rezas foram rezadas, e assim, finalmente, o Sol apareceu, todos olharam pro céu, esperando pelo pior, todavia, este estava mais azul, que o de costume, até o canto dos galos parecia mais bonito, os passarinhos saindo das árvores em busca do sustento, faziam uma avoaçada nunca vista igual, a natureza parecia transbordar de alegria e, como era de se esperar, "Deus seja louvado!, Ele nos perdoou!", todos exclamavam em uníssono, e, depois de um bom tempo de louvação, a alegria de não terem perdido a pele sobrepujou à perda da Árvore Sagrada, e tudo voltou ao normal.
Apesar desse dia tão alvissareiro, só uma coisa intrigava a todos, ou seja, a venda do Seu Antônio, que estava com as portas fechadas, logo ele, que tinha o hábito de madrugar no seu ofício. Pois é, acharam bastante estranho, e assim, chamaram o Pedrinho, acostumado a ajudar sempre o comerciante, para averiguar o que tinha ocorrido. O menino entrou pela janela quebrada dos fundos, enquanto que, do lado de fora, todos ansiavam pela sua volta. Minutos depois, retornou dizendo que na casa não tinha ninguém, trazendo nas mãos um bilhete. "Que bilhete é este?", perguntou-lhe o sacerdote, tomando-lhe a missiva de modo brusco, a qual passou a ler pra todo mundo ouvir, "O Expedito tinha razão!". Um silêncio se fez ouvir, mas ninguém entendeu a mensagem lacônica, nem mesmo o padre.

Anibal Werneck de Freitas, 29.09.2021.








NATURA & PESSOAS - Capítulo LIV - Numa Pompilius

 


1. Embora sendo irreligioso, não significa que sou contra religião, 
2. pelo contrário, incentivo até as Pessoas que têm tendência a ela. 
3. Agora, o que não aceito são os religiosos fundamentalistas. 
4. Eu os chamo de pardais, uma espécie de pássaro que é uma verdadeira praga, 
5. prolifera terrivelmente e se for no telhado de sua casa [como já aconteceu comigo] sai de baixo. 
6. Digo isso porque em pouco tempo eles danificam tudo com uma quantidade enorme de ninhos, 
7. isto sem falar nos filhotes defeituosos que são jogados para a morte certa.
8. Pois é, deste modo tudo tem limite, o exagero é realmente algo lastimável. 
9 Portanto, volto a afirmar que respeito todas as religiões e, deste modo, peço que respeite a minha posição de irreligioso.
10. Afinal, somos seres inteligentes e a tolerância é uma das suas principais características.
11. Em tempo, já faz algum tempo que a revista Rolling Stone publicou uma matéria [manchete de capa] assim, O Mercado Das Almas Selvagens, 
12. e como missionários fundamentalistas estão evangelizando os índios brasileiros.
13. Segundo a matéria do fanzine, eles estão destroçando a cultura de Pessoas Livres Na Natura. 
14. É um desrespeito que cabe ao nosso Governo agir contra, sem perda de tempo, 
15. Infelizmente, a coisa está feia, porque de fato, estes pardais vêm solapando, ultimamente, a integridade das Pessoas, de modo geral.

Numa Pompilius, 29.09.2021.

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

ACALANTO À JESUS MENINO-DEUS (Letra do Ex-Pe. Mauro de Queiroz - in memoriam/ Música de Anibal Werneck de Freitas)

 Festa pelos 130 anos da Paróquia Menino-Deus de Recreio da Diocese de Leopoldina, MG.

ACALANTO À JESUS MENINO-DEUS

(Mauro de Queiroz e Anibal Werneck)

Jesus veio brincar no Recreio, 

e assim cento e trinta anos já faz.

Não cresceu, ficou sempre menino, 

e assim pequenino, o ensino nos traz.

Ensinou o seu povo a sorrir 

na alegria da fraternidade,

A encontrar um espírito novo, 

e seguir a justiça e a igualdade.

Os tropeiros chegaram cansados, 

tal como os pastores vieram a Belém.

Bem depois esta comunidade 

escutava os sinos e os apitos dos trens.

Hoje tudo o que foi conquistado, 

como oferta nos apresentamos,

Cento e trinta anos é curto demais, 

grande o amor, longa a paz.  

O Recreio cresceu, transformou-se, 

esqueceu a infância e quer recordar.

Vem Jesus, vem brincar novamente, 

perdoa porque te fizemos chorar.

Dorme em paz ó Menino-Jesus, 

com o sonho da libertação.         

Nossa comunidade sempre mais 

viverá em fraterna união.






segunda-feira, 13 de setembro de 2021

DE COMO EU COSTUMO VER OS MORTOS NO MEIO DOS VIVOS, E EU NÃO SOU O ÚNICO.

Nasci em Recreio, MG, e, quando muito criança, meus pais me levavam muito ao Distrito de Conceição da Boa Vista, junto com o meu irmão mais novo, para visitarmos a minha avó, Ana. Pois é, no lugarejo, eu sentia que estava num outro mundo, tudo mudava dentro de mim, tinha a sensação da presença dos mortos, como se quisessem me mostrar a época em que estavam vivos, ou seja, o tempo em que Conceição era uma localidade muito importante na região, no século XIX, e, o mais interessante é que até hoje, eu continuo sentindo a mesma coisa. Acredito que não sou o único, e, só o recreiense nato sabe o âmago do que estou evidenciando. A coisa é tão forte que a última vez que estive em Ouro Preto, captei a mesma coisa, as casas, as pedras das ruas e as igrejas, tudo me mostrando os seus fantasmas. Como prova dos meus sentimentos serem verdadeiros, eu tenho a minha própria música que não me deixa mentir. Voltando a Conceição, não posso deixar de relatar a forte energia, neste sentido, da igreja e do seu cemitério, bem como a da igrejinha na pracinha, onde uma vez, meu pai mandou o Padre Higino celebrar uma missa pelas almas dos meus avós, e, confesso que tive a impressão de muita gente além do normal, na capelinha. Não foi a única vez que tive esta sensação. Certa feita, tocando, num casamento, na igreja da mesma localidade, observei o mesmo fenômeno. O cantor Fábio Jr., numa entrevista disse a mesma coisa mais contundente, "Nos meus shows, eu vejo sempre gente, além dos vivos"


. Acontece que não me assusto com isso, o mundo é como um grande computador, tudo que você deleta, continua nele. Até hoje não consigo esquecer, uma vez, tocando na boate de Pirapetinga, MG, na penumbra, eu vi um homem com mais de 2 metros, parado no meio do salão, como uma coluna do templo, olhando fixamente pra mim, coisa realmente assustadora, mais ainda, quando acenderam as luzes no intervalo, a estatura dos que estavam presentes era mediana. Pois bem, são coisas misteriosas que acredito um dia serem desvendadas pela ciência.

Anibal Werneck, 13.09.2021.