quinta-feira, 5 de novembro de 2026

JUSTINO E AS ALMAS NA PROCISSÂO DO SENHOR MORTO


I
Amigos do meu rincão,
Venham todos escutar,
A história de Justino,
Que não ia pra rezar,
Na igrejinha da serra,
Só pra moça paquerar.
II
Rapaz muito boa pinta,
Incrédulo e namorador,
Ficava de olho nas moças,
Filhas de rico feitor,
Usando a Santa Igreja
Pra ser falso amador.
III
Numa noite bem escura,
De silêncio e de mistério,
Uma procissão saía
Num clima muito sério,
Da capela de São João
Rumo ao alto do cemitério.
IV
O cortejo ia subindo
Lá pro topo do morro,
Levando o Senhor Morto
Pedindo a Deus o socorro,
Na Matriz de São João
Onde o povo busca forro.
V
O povo ia embevecido,
Rezando com devoção,
Ninguém olhava pro lado,
Seguindo frente a oração!
Mas Justino reparou
Numa estranha aparição.
VI
Vultos pretos, encapuzados,
Sem deixar o rosto ver,
Entravam no meio do povo,
Sem ninguém perceber,
Engordando a procissão,
Numa assombrado parecer.
VII
Quando a procissão chegou
Na dita Capela de São João,
Os fiéis foram entrando,
Mas os vultos não entraram não,
Pois foram pelas laterais
Sumindo assim na escuridão.
VIII
Justino, meio assustado,
Mas metido a corajoso,
Resolveu averiguar
Aquele caso misterioso,
Seguindo todas as sombras
Num rastro bem tenebroso.
IX
Atrás da velha capela,
Como manda a tradição,
Ficava o Campo Santo,
Lugar de assombração,
E os vultos foram entrando
Nele e sumindo então.
X
Ao ver os seres de preto
Sumirem sem explicação,
Desaparecendo nas tumbas
Numa incrível exatidão,
Justino não aguentou
E caiu sem condição.
XI
O cabra perdeu os sentidos,
O medo o fez desmaiar,
Ficou estirado no chão
Sem conseguir se animar,
Bem na porta do sepulcro
Até o dia clarear.
XII
No outro dia bem cedo
O povo ali o encontrou,
Ele contou o mistério
Do que lhe assombrou,
Mas ninguém acreditou
E ainda por cima o caçoou!

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