Peço rima e peço prumo,
Pra cantar com precisão,
Uma história diferente
Que se deu no meu sertão,
Onde o povo tem costume
De viver de oração.
Pra cantar com precisão,
Uma história diferente
Que se deu no meu sertão,
Onde o povo tem costume
De viver de oração.
Morava ali um sujeito
De cabeça muito fria,
Chamavam de Seu Clemente,
Homem de sabedoria,
Que não cria em milagre,
Em fantasma ou profecia.
De cabeça muito fria,
Chamavam de Seu Clemente,
Homem de sabedoria,
Que não cria em milagre,
Em fantasma ou profecia.
Dizia ele: "O que move
A enxada e o roçado
É o suor da minha testa,
É o braço calejado,
Não espero cair do céu
O que deve ser plantado".
A enxada e o roçado
É o suor da minha testa,
É o braço calejado,
Não espero cair do céu
O que deve ser plantado".
A vila inteira falava,
O padre até se benzia:
"Esse homem sem igreja
Vai queimar na heresia!"
Mas Clemente trabalhava
E a ninguém ele ofendia.
O padre até se benzia:
"Esse homem sem igreja
Vai queimar na heresia!"
Mas Clemente trabalhava
E a ninguém ele ofendia.
Certo ano a seca veio,
Castigando o Ceará,
O sol queimou o capim,
Rachou o chão de lascar,
O povo correu pra igreja
Pedindo pra Deus mandar.
Castigando o Ceará,
O sol queimou o capim,
Rachou o chão de lascar,
O povo correu pra igreja
Pedindo pra Deus mandar.
Fizeram reza e novena,
Procissão pro padroeiro,
Mas a chuva não vinha,
Sumiu a água do barreiro,
O gado caindo magro
No meio do tabuleiro.
Procissão pro padroeiro,
Mas a chuva não vinha,
Sumiu a água do barreiro,
O gado caindo magro
No meio do tabuleiro.
Enquanto o povo rezava,
Clemente usou a razão:
Estudou o solo seco,
Mediu a inclinação,
E cavou com paciência
Um poço no seu chão.
Clemente usou a razão:
Estudou o solo seco,
Mediu a inclinação,
E cavou com paciência
Um poço no seu chão.
Passou dia, passou noite,
No cansaço e no batente,
Achou água bem limpa,
Um lençol bem rente,
E salvou sua lavoura
A força de Seu Clemente.
No cansaço e no batente,
Achou água bem limpa,
Um lençol bem rente,
E salvou sua lavoura
A força de Seu Clemente.
O povo vendo fartura
Na terra do cidadão,
Disse o padre: "Foi milagre!
Deus ouviu nossa oração!"
Mas Clemente deu um riso
E mostrou o calo na mão.
Na terra do cidadão,
Disse o padre: "Foi milagre!
Deus ouviu nossa oração!"
Mas Clemente deu um riso
E mostrou o calo na mão.
"A vitória que eu tenho
Não veio do sobrenatural,
Vem da ciência e do esforço,
De um plano racional,
Pois o homem faz seu rumo,
Seja pro bem ou pro mal.
Não veio do sobrenatural,
Vem da ciência e do esforço,
De um plano racional,
Pois o homem faz seu rumo,
Seja pro bem ou pro mal.
Não preciso de promessa,
De temor ou de troféu,
A terra é quem me sustenta,
Não espero pelo céu".
E assim venceu Clemente,
Com a razão por chapéu.
De temor ou de troféu,
A terra é quem me sustenta,
Não espero pelo céu".
E assim venceu Clemente,
Com a razão por chapéu.

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